PFPMCG

A importância do uso de máscaras de proteção como barreira na disseminação da COVID-19

A importância do uso de máscaras de proteção como barreira na disseminação da COVID-19

Projeto Respire, da USP, adapta equipamento usado em estudo sobre o clima para testes e indicação de materiais mais adequados na produção de máscaras

Por: Cristiane Bergamini

Com a pandemia do novo Coronavírus, tem-se buscado muitas medidas de prevenção e cuidados, e uma das maneiras mais recomendadas é o distanciamento social, cuidados com a higiene e o uso de máscaras de proteção, mas será que qualquer tipo de máscara oferece a proteção necessária? O material utilizado em sua confecção tem relevância?

Como tem sido divulgado pelos órgãos nacionais e internacionais de saúde, as infecções respiratórias acontecem através da transmissão de gotículas contendo vírus e aerossóis exalados por indivíduos infectados. Por aerossóis entende-se a dissipação de fluidos, que no caso de algumas doenças, como a COVID-19, se dá pela transmissão de partículas menores do que gotículas, emitidas pela tosse, espirro e até mesmo a fala, e que podem permanecer no ar por horas e, assim, ser facilmente inalado.

De acordo com o artigo “Reducing transmission of SARS-CoV-2” (Reduzindo a transmissão de SARS-CoV-2) publicado, em 27 de maio de 2020, na Revista Sciense, os seres humanos produzem gotículas respiratórias que variam de 0,1 a 1000 μm (micrômetros – 1000 micrômetros equivalem e 1 milímetro). O tamanho, a inércia, a gravidade e a evaporação das gotículas determina a distância que as gotículas e aerossóis emitidos percorrerão no ar. As gotículas respiratórias sofrem sedimentação gravitacional mais rapidamente do que evaporam, contaminando, assim, as superfícies e levando à transmissão por contato.

O artigo revela que uma grande proporção de propagação da COVID-19 parece estar acontecendo através da transmissão aérea por aerossóis. Para isso, mostra dados de algumas localidades como Taiwan, Hong Kong, Japão, Cingapura, Coreia do Sul e Nova Iorque, para comparar que em locais como Taiwan, apesar de possuir uma população de 24 milhões de habitantes e sem ter adotado o lockdown (confinamento), a incidência da doença foi extremamente baixa, com 441 casos e 7 mortes, em comparação à Nova Iorque, por exemplo, que tem uma população menor, 20 milhões de habitantes e um registro de 353 mil casos e 24 mil mortes. Entre os planos adotados pelo governo de Taiwan, desde o início, que contemplava disponibilização, fácil acesso, preços razoáveis, aumento da produção, proibição da exportação e campanhas para uso contínuo das máscaras pela população, provavelmente influenciou o baixo número de casos da doença.

Devido ao rápido avanço da doença no Brasil e pela importância no uso das máscaras para diminuição da disseminação da COVID-19 já demonstrada em estudos e por experiências internacionais, a Universidade de São Paulo, através do Projeto Respire! Máscaras Seguras, realizou pesquisas para indicar que materiais são os mais eficientes para a produção do equipamento de proteção. O estudo contou com a participação de médicos, físicos, químicos, engenheiros e designers, que trabalharam na seleção dos materiais e realizaram testes utilizando um equipamento de medição de nanopartículas em suspensão no ar.

“Conhecer o tamanho das nanopartículas do vírus é essencial para o desenvolvimento do material mais adequado, pois para que a proteção aconteça é primordial evitar que o vírus fique suspenso no ar e, dessa forma, contamine as pessoas pela respiração”, informa o Professor do Instituto de Física da USP Paulo Eduardo Artaxo Netto, um dos responsáveis pelo Projeto e Coordenador do Programa Pesquisa FAPESP de Mudanças Climáticas Globais.

No que se refere ao tamanho do vírus, o artigo da Sciense aponta que o tamanho das gotículas respiratórias demonstrou afetar a gravidade da doença. No caso do SARS-CoV-2, é possível que os aerossóis contendo vírus estejam sendo transferidos profundamente para a região alveolar dos pulmões, onde as respostas imunes parecem ser temporariamente contornadas. O estudo demonstrou ainda que o SARS-CoV-2 se replica três vezes mais rápido que o SARS-CoV-1 e, portanto, pode se espalhar rapidamente para a faringe, a partir da qual ele pode ser eliminado antes que a resposta imune inata seja ativada e produza sintomas, ou seja, quando os sintomas acontecem, o paciente já transmitiu o vírus sem saber. O estudo indica também que em Wuhan, a cidade da província de Hubei, na China, o primeiro epicentro da pandemia, estimou-se que casos não diagnosticados de infecção por COVID-19, presumivelmente assintomáticos, foram responsáveis ​​por até 79% das infecções virais.

“O uso contínuo de máscaras é fundamental, pois funciona como uma barreira para evitar a propagação das partículas que podem ser liberadas por indivíduos infectados assintomáticos”, reforça Professor Paulo.

O Pesquisador lembra que cada país, cada localidade tem as suas particularidades e é por isso que é necessário adaptar equipamentos e materiais de acordo com a realidade brasileira para que se possa, com urgência, conter o avanço da doença. “Para esse estudo, por exemplo, adaptamos um equipamento (SMPS - Scanning Mobility Particle Sizer), acoplado a um contador de nanopartículas (CPC - Condensation Particle Counter) utilizado para a medição de nanopartículas em suspensão na atmosfera que afetam o clima. A pesquisa mostrou que a barreira, o tecido a ser utilizado, precisa de uma eficiência que seja possível reter o vírus com um tamanho, em média, de 120 nanômetros, ou seja, um bilhão de vezes menor que um metro”, afirma o Professor.

Entre os materiais analisados estão o TNT, uma espécie de material plástico que apresenta um nível de filtragem superior a 80%, sendo que alguns mostram uma eficiência de 97%. Outro material estudado são as camisetas de algodão para a indicação de produção caseira, que apresentam um nível de retenção em 50%.

Uma das dificuldades que os pesquisadores têm enfrentado, porém, é aquisição dos materiais. “Com a demanda, os preços estão bem mais altos e o elástico, por exemplo, um dos itens, está em falta no mercado, nos obrigando a adquirir materiais mais sofisticados sem necessidade”, informa o Coordenado do Projeto.

A preocupação dos pesquisadores e responsáveis pelo projeto vai além das pesquisas do tecido mais indicado para a produção das máscaras. O Respire! envolveu empresas e parceiros para auxiliar a população no enfrentamento da crise com informações mais precisas sobre o uso correto das máscaras, esterilização e descarte, disponibilização de moldes para a confecção das máscaras (no site do Projeto há três tutoriais para a produção de máscaras), doações da produção para os profissionais da saúde e famílias, e também auxílio na geração de renda, através de um mapeamento das oficinas e cooperativas de costura para incentivar a produção por esses grupos.

Vale destacar que o uso correto das máscaras tem se mostrado um grande aliado na prevenção e disseminação da doença, mas que deve ser complementado a outras medidas e instruções dos órgãos de saúde, como os cuidados com a higiene e, neste momento, o distanciamento social.

Como resultado, o projeto coordenador pelo Centro de Inovação da USP (InovaUSP), tem como meta produzir 1 milhão de máscaras e distribuir para 100 mil famílias e 8 mil profissionais da saúde em hospitais da rede pública até o início do segundo semestre.

O Projeto Respire! conta com a participação do Instituto de Física da USP, do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Poli, do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e do InovaHC, com a coordenação do Iris InovaUSP.

Para saber mais sobre o Projeto clique aqui!